LIVRO DO PONTAL NA VISÃO DO ESCRITOR RUY PÓVOAS

Não poderia eu deixar de fazer este registro, mesmo resumido, do que disse o Escritor Ruy Póvoas, através de e-mail, sobre o livro de nossa autoria, intitulado: “Pontal - Ontem &Hoje.”

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Caríssimo José Rezende Mendonça:

“Cai uma chuva fininha do céu de chumbo de Itabuna. É uma tarde de domingo e acabo de ler um exemplar da segunda edição de seu livro “Pontal: ontem e hoje”. Seu livro-documentário me carregou pela mão e me levou aos porões de minha memória onde está guardado um Pontal que se esfumaçou nas curvas do tempo. Na capa, a foto do saveiro Girassol, de cuja proa eu costumava dar mergulhos nas águas da baía de Pernambuco. Os colegas voltaram: Heider, José Cláudio, Sinésio, Lenival, Cicinho e outros e tornamos a mergulhar nas águas da memória...

Pois bem: nasci no Pontal, em 19 de maio de 1943 e por lá vivi até 28 de outubro de 1971. Vinte e oito anos, portanto. E guardei na memória aquele Pontal bucólico de um tempo antes da ponte. Nele, as ruas eram acarpetadas de capim e o meio de transporte mais rápido era o jegue do carvão, motivo de preocupação das mães que não queriam ver seus filhos atropelados... Eu não podia jogar futebol, porque era asmático. E só meu amigo Zé Pequeno tinha paciência de jogar bola comigo, porque eu não podia correr...

...Essa bondade dele eu carrego para sempre comigo e nem sei se ele sabe disso. Como também não posso esquecer o dia em que Portela me arrancou dos braços da morte, quando eu estava me afogando.

Você faz, em seu livro, uma turnê maravilhosa, documenta sob seu olhar, inúmeros pontos de nossa terra. É claro que você não pôde ver tudo. Até mesmo porque havia no Pontal segmentos sociais aos quais você não tinha acesso. Exemplo disso, o povo da panelinha da Igreja, dos terreiros de candomblé, das rodas de samba, dos peixeiros...

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É nesse âmbito em que me situo, pois fui criado com acesso a duas amplas classes sócio-econômicas: a dos ricos e a dos pobres. Meu pai, Agenor Póvoas, era fazendeiro de cacau, homem rico, de uma das mais tradicionais famílias de latifundiários da Região. Minha mãe, negra, analfabeta, mulher de terreiro de candomblé. E no trânsito desses dois mundos, eu fui criado. Estudei na Escola Coração de Maria, da Professora Elvira Marques, cuja foto no seu livro me matou de saudades. Quando eu saí de lá, você entrou. Depois, fiz Ginásio e Científico no IME. Depois, fiz Letras na FAFI e Mestrado na UFRJ. Vim para Itabuna e me tornei professor universitário, escritor e babalorixá...

Com o tempo, juntei minhas tendências para o ensino com o conhecimento do candomblé e me tornei escritor. Já tenho vários livros publicados. E em todos eles o Pontal sempre está presente...

Voltando ao seu livro, considero o ponto auge dele a sua misericórdia em abordar o assassinato de seu pai, sem acusação alguma a quem quer que seja. Isso revela uma atitude de pessoa espiritualizada que não acredita nas forças do ódio...

...Há vários aspectos de seu livro sobre os quais eu gostaria de conversar. Afinal, eu entendo que ele é um documentário que registra para “sempre” um Pontal que a mentalidade capitalista, extrativista e assassina do meio-ambiente fez questão de não preservar. E isso engloba grauçá, garu, murta, tapiá, siri, aratu, ostra, mussuni, siri mole, lagosta, pinaúna, caju, jaca de pobre, fruta pão, bucha de cerca, araçá, ouricuri, mane-velho, xandó, tucum, eucalipto cheiroso, praias largas, ondas mansinhas, orla sem lixo, fontes brotando em pé de morro, árvores centenárias, coqueiros em abundância, mangueiras desafiadoras, visagens, assombrações, lubisomens, bruxas, mulas sem cabeça, cavaleiros encantados, rezadeiras, bênção de sexta-feira santa...

...Aprendi com Cícero, o grande orador romano, que “com o tempo, todas as coisas mudam e nós mudamos com elas”. Também já disse Camões que “tudo é feito de mudanças”. Então, mudar é a palavra de ordem do Universo. Mas não se ensinou que mudar é destruir o passado. O povo da nossa Região deixa ver que tem verdadeira ojeriza ao passado e por isso tenta apagá-lo de qualquer maneira. Então, pessoas como você são marcos de resistência na preservação da memória.

Parabéns pelo seu trabalho. Em nome dos que você registrou e por toda a herança que eles nos legaram, me faço portador de eterno reconhecimento e penhor de gratidão.

Permita-me uma sugestão: mande cinco exemplares de seu livro para a Biblioteca Nacional, mais um outro para a Academia de Letras da Bahia e mais um para a Academia de Letras de Ilhéus e mais um para a Biblioteca da Academia Brasileira de Letras. Alguns devem ser mandados também para a Biblioteca Central da UESC. Mande alguns exemplares para uma distribuidora de livros, destas que circulam na Internet. Isso garantirá a circulação e a permanência da memória que você registrou.

Não vamos deixar isso se perder, pois depois de você, ninguém mais fará isso. E os que virão após você precisam conhecer tal registro”.

No mais, o melhor dos abraços pontalenses.

Ruy Póvoas

Eu queria saber como posso

Eu queria saber como posso me contactar com Ruy Póvoas, nem que seja por e-mail ou qualquer outra coisa parecida!
mas queria saber isso com urgência, Obrigado

LIVRO DO PONTAL

Olha quantas recordações me veio a mente neste momento, eu fui morador do Pontal e minha mãe reside até os dias atuais na Rua Treze de maio,
naquela época quando minha mãe quis comprar um terreno no Pontal, meu pai disse vc.está ficando maluca, e ela comprou um terreno na Rua Treze de Maio, quando a rua ainda era de barro e tinha uma grande poça de lama em frente ao terreno, hoje uma das ruas mais movimentadas, que leva para as belíssimas praias do sul.
minha avó Mariana Hafner tinha um bar onde hoje é o Pontal Praia Hotel, na frente do bar tinha um grande pé de tamarindo que dava uma grande sombra onde as pessoas saboreavam o picolé Rico feio por Ricardinho.
meu pai Willy Hafner, saia com meu tio Dalmo para pescar de jangada e voltava embalado pelos ventos com o samburá cheio de peixes, a noite ele pescava na rua da frente de rede e apanhava vários camarões, que normalmente resultava em deliciosas moquecas.
hoje moro em Eunápolis, mas sempre que posso estou no pontal matando as saudades do meu povo, da minha gente, da minha praia....
e falando em saudades, um forte abraço para Ruy Póvoas, que a muito não o vejo...
Willy Hafner junior

Mais uma sugestão.

Vamos fazer uma homenagem ao Rezende realizando um dia de autógrafos e jantar beneficente com todas honrarias.
O Pontalense.

LIVRO DO PONTAL NA VISÃO DO ESCRITOR RUY PÓVOAS

Ruy, você tem o poder de fazer as palavras dançarem em nossas mentes e nos transportarem para o passado não muito distante. Meu pai, Edmundo Póvoas, contava as histórias do Pontal, na sua juventude, dos seus passeios com a motocicleta, da época do namoro com a minha mãe, Julita. O meu tio Agenor, seu pai e meu padrinho de crisma que gostava de fazer palavras cruzadas. Uma pessoa maravilhosa. Fazia trabalhos com couro e comia muita pimenta. Aprendi com ele e com minha mãe a comer muita pimenta.
Muitas vezes fui visitar meu tio Agenor atravessando de lancha que balançava muito, mas a vontade de visitar os primos Ruy e Reinaldo era muito maior que o medo.
São muitas lembranças que você faz reviver nesse curto relato sobre o livro de José Rezende que reforço a sugestão do Ruy em divulgar pois o que é bom tem que ser mostrado ao mundo.

Cid Póvoas

Pontal - Ontem e Hoje

"Mais uma justíssima homenagem de quem é do ramo.'

Ruy, lendo o seu registro me transportei, e concordo inteiramente com ele. Pois o colega e amigo Rezende fez um resgate histórico sobre o nosso PONTAL. E se já não tomou a iniciativa, certamente acatará sua sugetão no sentido de distribui-lo para que a memória seja preservada.

Forte abraço,

ldortas@bol.com.br

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